Arthur Bispo do Rosário, Arte e Missão

Pouco se sabe sobre a vida de Arthur Bispo do Rosário antes da sua internação na Colônia Juliano Moreira. As informações que se tem é que ele nasceu em Sergipe, em 1911 ( algumas fontes falam em 1909). Mudou-se para o Rio de janeiro, em 1925, onde trabalhou na Marinha Brasileira, na empresa de eletricidade Light e foi pugilista, campeão sul-americano na categoria peso-leve.

Quando trabalhava na Empresa Light sofreu um acidente de trabalho e levou o caso à Justiça. Nesta ocasião, conheceu o advogado Humberto Magalhães Leoni, que o levou para sua casa, onde Bispo trabalhou como ajudante geral. Em dezembro de 1938, Arthur Bispo falou com Humberto que havia visto anjos e escutado vozes celestiais. Saiu de casa, foi ao mosteiro São Bento e falou para os monges que era um enviado de Deus, encarregado de julgar os vivos e os mortos. Foi preso e enviado ao hospício da Praia Vermelha e depois para a Colônia Juliano Moreira com o diagnóstico de esquizofrenia paranóide. Nesta Colônia, entre idas e vindas, Arthur Bispo viveu aproximadamente 50 anos. E lá cumpriu o que acreditava ser sua missão, reconstruir o mundo.

Diferente dos pacientes da Dra. Nise, Arthur não foi tratado com Terapia Ocupacional, e mesmo sob forte medicação e tratamentos de choque não parou de produzir. Arthur criou em torno de 800 obras, todas com o intuito de catalogar o mundo em miniaturas e apresentar a Deus quando fosse levado pelos anjos. Ele não se considerava um artista porque dizia que o que fazia era o que as vozes que ele ouvia mandavam.

Para realizar sua missão, Bispo do Rosário teve ajuda de seus companheiros na Colônia que lhe davam os entulhos e papelões que encontravam. Arthur fazia trabalhos de colagens, tapeçarias, estandartes, pinturas, bordados. Criava painéis com objetos: canecas de alumínio, botões, garrafas de plástico com papel picado, ferragens, sabonetes, colheres, sapatos, botas

de borracha, pentes, material elétrico e eletrônico, objetos rituais (macumba), que ele denominava de “vitrines”.

O Manto da Apresentação que Bispo fez para usar no dia do Julgamento Final é uma de suas obras mais impactantes. Nele estão bordados na face externa palavras, símbolos, números e figuras. Dólmãs e cordas de cortina servem como adornos. Na face interna, sobre fundo de tecido branco, há nomes de mulheres, organizados em forma de uma espiral irregular em direção à abertura da cabeça, bordados em sua maioria com fios de cor azul que vinham dos uniformes que internos da Colônia usavam e que ele desmanchava. “Se é um manto ou não, pode parecer uma questão sem importância. Não obstante, a designação ‘manto’ encobre a natureza do arquétipo social sobre a qual Bispo do Rosário elaborou. Esta obra nasce da imitação de uma peça do vestuário da nobreza: parte da roupa de um rei, ou de um general do exército real. Só o paletó interessa, pois nele se concentram os elementos simbólicos ostentatórios de poder e nobreza, como dragonas, bordados, condecorações. (…) o que temos aqui é a apropriação pelo artista de um objeto-símbolo que a seus olhos traduz riqueza, beleza, nobreza, (…). Vista desse ângulo, esta obra de Bispo do Rosário é, como expressão artística, uma manifestação surpreendente por sua originalidade e força semântica”. Ferreira Gullar.

Arthur Bispo do Rosário não teve nenhuma formação artística, mas seu trabalho seguia uma linha convergente ao que se discutia sobre arte contemporânea mundial, mesmo sem ter nenhum contato com influências exteriores. Suas obras começaram a se destacar quando críticos de arte e artistas tiveram contato com seu trabalho. Um dos primeiros foi o crítico de arte Frederico Morais, que em 1982 (quando Arthur ainda estava vivo, ele faleceu em 1989) levou suas obras para exposição À Margem da Vida, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ. Sobre alguns dos trabalhos de Bispo, Frederico explica que são como: “objetos isolados, duchampianos, de decifração ainda difícil, com forte carga simbólica, ou simplesmente de encantadores.”

O artista já participou de dezenas de exposições nacionais e internacionais. Inclusive no ano passado foi o artista homenageado na 30ª Bienal de Arte de São Paulo e neste ano participará pela segunda vez da Bienal de Veneza, tendo sido a primeira vez em 1995. Sobre sua vida e obra, vários livros foram escritos, filmes produzidos, foi tema de várias teses de estudos em diversas áreas como: Psicanálise, Sociologia, História da Arte, Semiótica e Antropologia.

Sua grande produção é simplesmente encantadora, como disse Frederico de Morais. Afinada com as referências e conceitos de Arte Contemporânea, sem nenhuma disciplina ou sistematização, era a criatividade em estado puro, como descreveu Ivo mesquita. A doença, a internação em um hospício, a criação incessantemente com os materiais que estavam “a mão”, com o único objetivo de cumprir uma missão que lhe foi enviada, e um passado praticamente desconhecido: são fatores que contribuem para atrair cada vez mais apreciadores pelas obras Arthur Bispo do Rosário.

Hoje a Colônia Juliano Moreira não funciona mais como manicômio. O espaço abriga o Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea onde se encontra o acervo permanente das obras do artista.

Algumas de suas obras:

Referências:

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=568

http://www.ofluminense.com.br/editorias/cultura-e-lazer/entre-arte-e-loucura-de-arthur-bispo-do-rosario

http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2012/09/sagracao-de-arthur-bispo-do-rosario-na-bienal-internacional-de-artes-de-sao-paulo.html

http://www.almanaquebrasil.com.br/personalidades-arte/9730-arthur-bispo-do-rosario.html

http://www.unesp.br/aci/jornal/207/divino.php

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/Enc_Artistas/artistas_imp.cfm?cd_verbete=568&imp=N&cd_idioma=28555

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